Publicado em 02 d Outubro d 2018

Projeto da Fenf alerta profissionais da beleza para perigos da contaminação

Fazer as mãos ou os pés, como popularmente se diz, é uma atividade cultural e também econômica importante no Brasil.

Imagem de capa JU-online

Manicures e podólogos espantam-se ao ver quantos perigos pode carregar uma lâmina desgastada pelo longo tempo de uso. Eles se convencem, por meio de uma lupa e de um microscópio, que é preciso de alguns cuidados antes de esterilizar seus instrumentais de trabalho, entre eles, lavar com escova. A aula que promove o contato com o mundo dos microrganismos acontece no Laboratório de Parasitologia, instalado no Laboratório de Patologia Clínica do Hospital de Clínicas da Unicamp, como parte do projeto de extensão Biossegurança na Prestação nos Serviços de Grupo de Manicures e Podólogos da Faculdade de Enfermagem (Fenf) da Unicamp.

“Fazer” as mãos ou os pés, como popularmente se diz, é uma atividade cultural e também econômica importante no Brasil. Estar “arrumado” para o trabalho ou qualquer outro compromisso é ter cabelos, sobrancelhas, pés, mãos embelezados, mas algumas áreas oferecem riscos à saúde, apesar de não se enquadrarem na área. Sendo assim, médicos, enfermeiros e outros profissionais se veem na necessidade de pesquisar e até mesmo desenvolver ações de orientação e prevenção, segundo Maria Filomena Vilela, professora da Fenf e uma das coordenadoras do projeto. “O trabalho de manicures, pedicures e podólogos entra neste leque de atividades relevantes à saúde.”

Segundo Filomena, o hábito de retirada das cutículas é comum em muitas culturas, mas durante o processo, a lâmina entra em contato com o sangue, o que pode oferecer risco de contaminação de doenças como hepatites B e C, HIV e até mesmo micoses. O infectologista Carlos Emílio Levy, do Departamento de Patologia Clínica da Faculdade de Ciências Médicas, acrescenta que alguns casos de micose podem levar à perda de uma unha.

Deixar de escovar com água e sabão seus instrumentais de trabalho e depois submetê-los ao processo de esterilização seguro para ela e seus clientes já nem passava pela cabeça da podóloga Rose Prudente, mas depois da participação no curso coordenado pelas professoras Filomena e Maria Isabel Freitas, diretora da Fenf, acredita que sem conhecimento e compromisso com a biossegurança, é melhor nem abrir um salão.

Antes mesmo da formatura em podologia, a aluna e assistente Driely Leite segue os passos da mestra Rose e ressalta a importância da continuidade do curso para promover o acesso de mais profissionais da área de embelezamento. Na academia de beleza, Rose tornou-se multiplicadora do conhecimento adquirido na Fenf, o que para Isabel contempla parte do objetivo do curso, que é intensificar a atenção ao cliente e à própria saúde por parte dos profissionais.

Pela seriedade do salão onde é assistente, Driely já sabe que aquele brilho no alicate para remoção de cutículas pode ser apenas boa aparência, pois, na verdade, as lupas não mentem e é melhor reconhecer quando o instrumental virou material para descarte.

Mas nem sempre é assim, e todo cuidado é pouco. Os resultados de um questionário realizado com manicures e podólogos para uma pesquisa de mestrado, orientada por Maria Isabel em 2005, motivou a criação do curso, segundo a professora. “Validamos um questionário e identificamos que os institutos de beleza não seguiam todas as etapas de esterilização para ter segurança.” Porém, era preciso saber quais teriam registro para começar um trabalho oficial, e aí o perigo fez alarde: poucos eram registrados. Diante dos dados, Isabel propôs parceria com a Vigilância Epidemiológica de Campinas, por meio de Maria Filomena, hoje docente da Fenf e uma das coordenadoras do projeto.
“Ficamos extremamente assustados, pois com raríssimas exceções, os alicates e material perfurocortante não estavam em total segurança”, reforça Isabel. Era preciso agir, lançar-se além da pesquisa, já que a ideia de investigar a segurança na área surgiu de dados preocupantes de outro estudo, publicado em 2004 na revista Pesquisa Fapesp, coordenado pelo professor Roberto Focaccio, no qual a contaminação por hepatites B e C entre mulheres era preponderante.

Para Isabel, a extensão permite que as orientações possam ultrapassar as estantes das bibliotecas e as publicações em revistas e promover a oportunidade de dialogar, buscar a troca e até mesmo dar a oportunidade de conhecer de perto o universo acadêmico, no caso do curso, abrindo laboratórios, microscópios para mostrar as formas de infecção.

A responsável por mostrar o que deve ser eliminado antes do processo de esterilização é Vanessa Vilas Boas, enfermeira do Hospital da Mulher José Aristodemo Pinotti (Caism), professora no curso e criadora do Laboratório de Parasitologia. De acordo com a enfermeira, é importante fazer com que os alunos entendam como se dá a infecção dentro da tríade epidemiológica, fatores de risco e a transmissão cruzada. A partir dessas discussões, é possível, segundo a pesquisadora, orientar sobre os tipos de prevenção de transmissão cruzada.

De acordo com o médico infectologista Carlos Emílio Levy, professor do Departamento de Patologia Clínica da Faculdade de Ciências Médicas e parceiro da Fenf no projeto, o instrumental de remover cutículas muitas vezes aparentemente está bom, mas com o tempo é corroído e as irregularidades podem abrigar sujidades. Além de mostrar como se comportam os microrganismos e orientar sobre os riscos de infecção, ele também alerta os profissionais sobre o uso prolongado dos objetos.

Texto - Maria Alice da Cruz |Proec

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