Publicado em 08 d Março d 2018

No teu seio, a liberdade

08 de março, Dia Internacional da Mulher

Anna Luiza Calixto

A luta por direitos constitui um patamar histórico que alimenta nossa esperança justa e igualitária. Há quem defenda que a busca exaustiva pela paridade dá-se como um ciclo vicioso que esbarra nas desigualdades e retarda a sua velocidade progressivamente. Refletir neste Dia Internacional da Mulher é como polir a vidraça de um sonho, mas derruba o nosso discurso quase idílico de isenção de responsabilidade sobre o combate às violações de direito que exterminam nossos públicos mais vulneráveis com duas palavrinhas: absoluta prioridade.
Doeu aí?
Para o desconforto de muitos, a Lei que rege nosso paraíso tropical ainda delibera que tal prioridade, prevista na conduta da proteção integral, não deve ser exercida apenas pelo Estado, tão somente pela família ou é exclusiva responsabilidade da sociedade. Na dança das cadeiras que vem, ao longo das décadas, definindo com quem fica o desafio de zelar pelo cumprimento dos direitos  de todas as mulheres, há lugar para todos.
Já passamos da fase de acreditar que o feminismo (assim como todo o movimento que coloca em ação o combate e a erradicação da opressão às mulheres), assim como outras violências que impactam quase que irreversivelmente a realidade de tantas mulheres, é fruto do imaginário de uma parcela social que desenha a traços descuidados o cenário político-administrativo. Isto não se chama ‘preocupação com coisas maiores’ mas, sim, naturalização da dinâmica caótica.
A realidade, concreta e palpável, é que na mesma pátria amada das palmeiras em que cantam os sabiás, a cada onze minutos uma mulher é estuprada, em vias públicas ou dentro de sua própria casa. E, antes que me pergunte, nós temos tudo a ver com isso.
O sujeito de direitos não é aquele que tem, apenas, os seus direitos assistidos, mas, sobretudo, aquele que assiste os seus direitos.
Não raro observamos que, no Brasil e no mundo, a magnitude de nossas rachaduras sociais se torna motivo para o comodismo de quem dorme sobre elas. Se cada um que está lendo este texto assumisse o desafio de transformar o seu próprio universo, o carrinho de tijolos para a construção de uma realidade mais justa e igualitária estaria muito mais leve.
A resolução de mazelas sociais como a violência contra a mulher não nasce apenas nas grandes instituições sociais, nos singulares eventos beneficentes e nos bolsos  cheios de gestores públicos. Você é tão importante quanto eles ao falar sobre os assuntos dentro da sala de aula, no almoço de domingo e na reunião de sexta-feira.
Nenhuma das transformações da história do mundo aconteceu no amanhã. – e de nada adianta esperarmos que este fatídico dia chegue se não estamos plantando a semente do fruto que queremos colher. No conforto do seu sofá é fácil declamar biblicamente que “ela estava provocando” ou que “na sua época” isto não seria problema algum – é odioso universalizar o sofrimento e a vulnerabilidade  em um mund que foi construído, historicamente, sobre moldes patriarcais. O ar condicionado nos afasta do problema que vive logo ali.
Fortaleça suas redes sociais como importantes ferramentas de discussão. Promova o debate, fomente a troca de informações e aponte a denúncia como principal caminho a ser seguido – você é um ator da conscientização, da resistência sensível e necessária.
Tornar-se peça indispensável para a engrenagem social em que cada movimento depende da consciência particular de cada membro do todo – este é o ponto. apropriar-se dos canais de denúncia e cultivar o debate dentro dos próprios meios de convívio – sujeitar-se a lutar por seus direitos.
Abrindo meu diário de participação para você, que nesta conversa já se tornou meu paciente ouvinte, posso confessar que a tarefa não é simples – mas em nada os obstáculos podem obstruir o quão recompensadora é a sensação de lutar pelo que se acredita.
Desde 2008, inseri-me na discussão da construção de políticas públicas que fossem capazes de suprir as tantas demandas de garantia de direitos. Na época ainda criança, mal pude antecipar a história que naquele caminho me seguiria, fazendo-me conhecer tantos outros beija-flores que, cada qual em sua floresta, estavam apagando (com a água do bico) o incêndio da violação de nossos direitos. O protagonista é a agulha que procuramos no palheiro.
Com a boca no trombone e conscientes de que agora é nossa vez, prontas para falar e ser ouvidas, sem precisar que ninguém nos dê a voz – ela já é nossa. Projetar futuros possíveis e saber exigir das autoridades políticas competentes o alicerce necessário para fixarmos nossos tijolos é também aprender o novo e romper os paradigmas que nos amarram ao retrocesso. Aqui somos soldadas do reestabelecimento de direitos – como teceu em palavras o poeta amazonense Thiago de Mello: “Faz escuro, mas eu canto”.
E continuaremos.
A voz que entoa nosso hino nacional, “no teu seio a liberdade desafia o nosso peito à própria morte”, não se calará enquanto acreditar que resistir é honrar o nome de todas as que morreram em chamas (homenageadas neste dia) para tornar nossa jornada menos sangrenta. Cada uma de nós é parte indispensável do todo - e não pode ser esquecida.  

Anna Luiza Calixto nasceu em 2000 e desde os 8 anos luta por direitos de crianças e adolescentes. Escritora e palestrante, viaja pelo Brasil com suas palavras, por meio do do Projeto Os Cinco Passos, ferramenta de cidadania itinerante de sua autoria.  Membro do CONAPETI (Comitê Nacional de Adolescentes pela Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil), é caçula da turma de colunistas da Rede Peteca.

Por Anna Luiza Calixto

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