Publicado em 16 d Janeiro d 2019

Ferir não é educar

Os desafios para a inclusão do combate às violações de direitos nas pautas educacionais.

Anna Luiza Calixto

Os pés em uma sala de aula. Em uma mão, o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescentes); na outra, uma peteca – em referência ao Programa de Erradicação ao Trabalho entre crianças e adolescentes (PETECA). O Projeto Os Cinco Passos visitou mais de duzentas mil crianças e adolescentes do Sistema Educacional Brasileiro, em variadas faixas etárias.
Conheceu, olho no olho, realidades que, não raro, passam desapercebidas no contexto caótico do cotidiano urbano. E, exatamente nestes casos, estão os meninos e meninas vítimas de violências como o abuso sexual; o trabalho infantil; a violência doméstica e abuso moral. As carteiras enfileiradas sobrepõe os processos traumáticos, em plena desordem, tantas vezes reforçados pela atmosfera do bullying que, devido a sua insistência, torna-se peça do cenário vivo do que é – ou, ao menos, deveria ser – o laboratório da sociedade que desejamos construir. A Escola.
Ao fundar o Projeto, no início de 2016, elaborei um plano de trabalho que visava levar pautas como a participação sócio política de crianças e adolescentes para cinquenta e cinco salas de quinto ano – ao todo, nove mil alunos – da Rede Pública Municipal Atibaiense, meu município. Estimular o protagonismo infantojuvenil em um patamar educacional com dados nulos de evasão escolar e casos isoladíssimos de violência severas no tratar dos alunos é, de fato, uma experiência não tão desafiadora, ao passo que o sistema de grêmios já contempla tais meninos e meninas com conceitos básicos de compromisso com valores e representação de um ideal coletivo.
Compreendi, de fato, a tarefa bárbara – no melhor sentido da palavra – de cultivar os direitos humanos dentro do ambiente escolar, ao visitar Projetos Sociais em zonas de risco; Escolas ameaçadas por movimentações políticas perversas e salas de aula com índices de evasão de até oitenta por cento. Onde, não raro, os braços da justiça não alcançam e a vulnerabilidade social é hereditária e se perpetua diante da omissão pública e hereditária.
A Sala em que, a Professora ou o Professor – mal remunerados – não constroem vínculos com os alunos que, por sua vez, são desestimulados pelo quadro totalizante que, nada idílico, indica as evidências de que (assim como os braços da justiça) a tal da meritocracia não alcança. Faltam pés para a igualdade social e os direitos fundamentais se atrasam na corrida para reestabelecer padrões básicos de dignidade; saúde e oportunidade para milhões de meninos e meninas que são expostos à violações das mais severas e capazes de provocar impactos quase que irreversíveis em suas vidas.
De um lado, quarenta por cento das vítimas de trabalho infantil frequenta o ambiente escolar (PNAD|2015) e centenas de relatos de profissionais da educação que têm contato com alunos vítimas de violências sexuais. Do outro, a insistência de uma parcela social que resiste à necessidade da educação sexual nas Escolas para além do brado “cabeça, ombro, joelho e pé” e da necessidade de pautar o combate das violações de direitos dentro das salas de aula, com o objetivo de conscientizar e derrubar o abismo – quase o precipício – que existe entre o campo educacional e a rede protetiva.
A fome ainda bate à porta; a mortalidade infantil assusta; o abuso sexual incendeia as estatísticas; a erotização infantil, não raro, ganha os palcos e telas; o saneamento básico falta; a consciência social se distancia das reais fraturas a seres curadas; crianças trabalham em condições desumanas para buscar o sustento de seu lar e, cá estamos nós, discutindo a possível influência de pautas como sexualidade para promover a prevenção do abuso de meninos e meninas que quiçá são incluídos na discussão.
Ferir não é educar. Tolir a espontaneidade também é uma forma de preconceito. Punir por ser é impedir de se tornar. Pecar pela má compreensão da força infantil de querer viver tudo o que é possível, em todas as cores, é o que pincela o conservadorismo monocromático que crê nos papeis de gênero mas é cético quanto à capacidade de nossos meninos e meninas de compreenderem quem são. Conscientes de si e perceptíveis ao outro. Sem precisar crescer e olhar o mundo sob os olhos cruéis de quem esqueceu-se da infância. Livres para ser.

Anna Luiza Calixto

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