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O ano que vem ate nós

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03 d Janeiro d 2019 - Variedades

Com os pés preparados para pular as sete primeiras ondas de dois mil e dezenove (2019), começam a emergir as típicas listas de metas para si; promessas para que os outros ouçam e objetivos para satisfazer a ninguém - que caem no esquecimento e voltam à tona a cada mês de dezembro, em que somos convidados a olhar para mais doze meses que se foram com o mesmo olhar procrastinado sobre aquilo que, supostamente, é desejado. Supostamente porque poucas delas nos conduzem ao encerramento do próximo ano com uma mudança substancial; com mais esperança do que neste.
Perder um ou outro quilo afim de atender a padrões absolutamente inconsistentes em seus argumentos; viajar nas férias de inverno; ler ao menos um livro mensalmente; finalmente trocar de emprego e se organizar para otimizar o próprio tempo. A caneta pousa no papel e preenche-o com ideias penduradas na cômoda - espaço preenchido por influências externas, compromissos individuais para que sejam leme para um novo ciclo que se aproxima. O vazio palpável de cada uma delas é perecível, e dificilmente perdura para o próximo ano novo.
A cômoda passa por uma limpeza e, junto com ela, as ideias que, dia a dia dos trezentos e sessenta e cinco (365) que se seguem, passam por metamorfoses naturais ao passo que cada um deles é uma oportunidade para repensar, flexibilizar e até mesmo riscar promessas que deixam de fazer sentido, sendo prontamente substituídas por ideias mais plausíveis com nossos valores e coerentes com os caminhos que tomamos - mediante situações adversas e circunstâncias contrárias ao imaginado. As promessas amadurecem, deixam de ser prioridades para atender à expectativa alheia e passam a compor o mosaico das reflexões empíricas- mesmo que não raro esquecidas.
Imediatismo? Não. Urgência.
Podemos ver o ano que se aproxima, caminhando em nossa direção e lendo nossas listas, já repetitivas. Nossos compromissos individuais em nada satisfazem ao senso de urgência totalizante que insiste em nos alertar que de nada adianta o espírito natalino, se ele for apenas uma brisa de solidariedade e compaixão que, na manhã do dia vinte e seis (26), já se torna cinzas.
De quê valem as promessas para um novo ano se, em uma cegueira brindada, tornamo-nos incapazes de estender a mão para tantos meninos e meninas que escrevem pedidos para o bom velhinho, muito mais simples - mesmo que distantes - das férias de inverno que ocupam espaço em nossas listas. Pedidos de dignidade básica, vindo de meninos e meninas que, moral e constitucionalmente, têm vínculos de proteção estabelecidos com todos nós (família, sociedade e estado), para além do sangue comum entre as partes. A humanização não pode ser um processo temático, removido junto com a decoração luminosa. Para quê compartilhamos flores e desejos de bênçãos para todos os nossos amigos virtuais se, em carne e osso, parecemos incapazes de dizer "bom dia" ao passar pela portaria do prédio e encontrar com o porteiro?
A ilustração deste sentimento de procrastinação ao urgente e cegueira mediante o evidente, é trazida por João Guimarães Rosa em "Grande Sertão Veredas", quando diz: "medo não, mas perdi a vontade de ter coragem". A sensação de "quase cansaço, quase medo" se torna perigosa quando se aproxima da "quase indiferença" e números passam a significar tão somente números, e não vidas passadas a limpo em estatísticas.
Ao passo em que celebramos, nesta época, o nascimento de um menino, não cabe renunciar os direitos fundamentais de tantos outros. A paz que o menino Jesus trouxe ao mundo ao nascer, manifestou -se sob a forma da inocência de uma criança. Um menino com promessas de bênçãos dentro da manjedoura pobre, assim como os lares pobres diz trinta mil jovens mortos anualmente no Brasil. Menino Jesus.
A vida destes meninos e meninas é a mais pura e verdadeira face do que desejamos para um novo ano. Nascimento, renovação, esperança, fé. Acreditar e fazer-se valer dos melhores sentimentos, não tão somente em uma data peculiar, mas por mais 364 dias - de um ano que vai nascer - que são nada mais que exponenciais oportunidades de praticar o maior milagre: amar.
O ano só é novo se, com ele, se renova a nossa capacidade de ser consciente de si e perceptível ao outro. Que dois mil e dezenove (2019) não nos traga nada, mas esteja de braços abertos para tudo o que temos para oferecer. Para levar a bordo de novos trezentos e sessenta e cinco (365) oportunidades de ser novo. Mais do que um feliz ano novo. Feliz ano nosso.

Por Anna Luiza Calixto




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