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Abandono da Escola ou Escola que abandona?

Quando a Escola abre seus portões para reter seus alunos, deixa de ser um território de aprender


29 d Janeiro d 2019 - Variedades

Outro dia, em pesquisa sobre as características do abandono escolar no Brasil, encontrei uma reportagem que retratava os principais motivos para que as crianças e adolescentes se afastem de suas escolas. Chamou-me a atenção sua manchete, que orientava o papel do educador e gestor na “retenção” do aluno. Passo, então, a estudar o olhar histórico brasileiro sobre a necessidade de inserir o público infantojuvenil no ambiente escolar; a buscar um pano de fundo que me faça olhar as peças que unem tais alunos em uma sala de aula e a questionar nosso estímulo pela frequência escolar quando ele se encerra na retenção do menino ou da menina entre os muros coloridos de um complexo educacional.
Reter, em sua significação léxica, quer dizer segurar com firmeza, conter, ter em mãos. Quando a Escola abre seus portões para reter seus alunos, deixa de ser um território de aprender e passa a configurar-se como campo de contenção, que objetiva disciplinar e moldar seus alunos à rotina social comum. Tê-los em suas mãos, quero crer, pode ser lido como uma prática de proteção, de cuidado. Em contramão, o quadro nada idílico encontrado nas Escolas brasileiras nos diz o contrário.
A evasão escolar se dá como um processo reflexivo às características do ambiente escolas, não raro sucateado e herdeiro da omissão de investimentos, além de não acompanhar tendências educacionais de todo o mundo, em que o aprendizado é fruto da adaptação da Escola às necessidades e características de cada aluno para absorver conhecimento, ato que atravessa os muros e vive nas calçadas, mesas, conversas, brincadeiras, histórias contadas, convivência com o diverso, experiências, tentativas (assim como erros) e contatos geracionais.
A verdade é que, antes dos meninos e meninas brasileiros abandonarem suas Escolas, seus direitos são abandonados.
Com base nos dados amostrados pela Pesquisa Nacional por Amostra em Domicílio (PNAD) de 2015, o Todos pela Educação realizou um levantamento que aponta 2,5 milhões de crianças e jovens fora da Escola, o que nos leva a refletir sobre os dois milhões de adolescentes de 14 a 17 anos que figuram no trabalho precoce. A intersecção entre os dois universos prova que as políticas públicas voltadas para a erradicação do trabalho infantil precisam caminhar de encontro com as de combate ao abandono escolar, valorizando a educação e estimulando as Secretarias Municipais de Educação a desenvolver ações de reestabelecimento de direitos fundamentais para este público, aliadas aos Conselhos Municipais dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA) e aos Conselhos Tutelares. Intersetorialidade de fato.
A evasão também se manifesta, em aspectos diferentes, nos alunos que são vítimas de violências como o trabalho infantil mas estão nas salas de aulas, com rendimento escolar em queda, retraídos e inseguros, com sono e atraso para chegar à Escola. Uma criança que precisa administrar seu tempo entre a dedicação ao estudo e o trabalho infantil, sofre consequências cognitivas relacionadas à carga mental excessiva e ao desgaste corporal de um corpo em desenvolvimento que perde suas horas de sono e seu ritmo natural de distrações e alimentação.
Este processo de resgate a tantos meninos e meninas que deixaram suas Escolas se dá com o envolvimento sociedade | Escola, em que o mundo é o território de aprender e os portões de entrada são um convite para aprender, conhecer, experimentar, ler, ter contato, ser. Escolas que não são capazes de reter crianças e adolescentes, mas que promovem momentos de aprendizado tão importantes e que constroem vínculos tão transformadores que os seus muros são apenas uma linha tênue que divide aquele espaço do mundo lá de fora, que também é nosso.
Neste período de volta às aulas, tenhamos o olhar atento para perceber e os ouvidos abertos para entender o atraso, a falta, o sono e não repreender, mas lutar contra o que está por trás deles. Reter apenas o conhecimento. Ter em mão apenas para cuidar, para libertar e para proteger. Que todos possamos ser a Escola. E que cada Escola possa ser como nossas crianças e adolescentes: prontos para mudar, aprender e ter em si, o outro.

Por Anna Luiza Calixto




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