HISTÓRIAS DE ATIBAIA – Os circos mais tradicionais passaram por Atibaia
Nas páginas do jornal O Atibaiense, a companhia era anunciada como um “Circo Equestre”, denominação que evidenciava uma das principais atrações dos espetáculos da época.
Márcio Zago
No início do século XX, Atibaia, assim como diversas cidades do interior paulista, recebeu companhias circenses que hoje ocupam lugar de destaque nos primeiros capítulos da história do circo no Brasil. Entre elas encontrava-se o Circo Bragazzi, instalado na cidade em 1908, em um terreno cedido por Bartolomeu Perano. Nas páginas do jornal O Atibaiense, a companhia era anunciada como um “Circo Equestre”, denominação que evidenciava uma das principais atrações dos espetáculos da época. A família Bragazzi é frequentemente apontada como uma das pioneiras da atividade circense organizada no país, tendo chegado ao Rio de Janeiro por volta de 1830. De origem europeia, introduziu no Brasil o modelo de circo com picadeiro, reunindo apresentações de cavaleiros, acrobatas, equilibristas, ginastas e palhaços. Seus espetáculos contribuíram para a popularização dessa forma de entretenimento e ajudaram a consolidar uma nova linguagem artística junto ao público brasileiro. A presença dos Bragazzi também abriu caminho para que outras famílias circenses se estabelecessem no país, fortalecendo a tradição do chamado circo-família. Nesse modelo, os conhecimentos, técnicas e repertórios eram transmitidos de geração em geração, garantindo a continuidade dos ofícios e a preservação de um rico patrimônio cultural. É nesse contexto que se destaca também o Circo Clementino, de propriedade de Clementino Zacharias (ou Zacarias), uma das companhias mais conhecidas que percorreram o interior paulista nas primeiras décadas do século XX. Seu nome aparece com frequência nos jornais da época e em estudos dedicados à história do circo-teatro brasileiro. O repertório reunia as atrações tradicionais do circo como acrobacias, números equestres, comicidade e palhaçaria, mas incluía também as chamadas pantomimas, pequenas peças teatrais encenadas no picadeiro. O Circo Clementino pertenceu a um momento decisivo da evolução das artes circenses, quando o espetáculo deixava de ser exclusivamente baseado em habilidades físicas para incorporar enredos dramáticos, comédias e adaptações de obras conhecidas. Entre as montagens registradas figuram títulos como Romeu e Julieta, Aquática e A Casa Encantada, demonstrando a crescente aproximação entre o circo e o teatro. Entre seus artistas destacava-se o palhaço-cantor Serrano, descrito pela imprensa paulista como um “palhaço-trovador”. Famoso por interpretar modinhas ao violão, lundus e chulas sapateadas, Serrano contribuiu para adaptar o repertório dos clowns europeus à realidade cultural brasileira. Ao incorporar ritmos populares e elementos da cultura afro-brasileira, ajudou a moldar características próprias da palhaçaria nacional, aproximando ainda mais o espetáculo circense do público do país. O Circo Clementino foi, assim, uma das mais importantes companhias itinerantes de seu tempo, desempenhando papel fundamental na popularização do circo-teatro e na formação da identidade artística do circo brasileiro. Para Atibaia, porém, sua passagem deixou um legado ainda mais significativo. Quando a companhia esteve na cidade, em 1910, integrava seu elenco o músico português Arnaldo de Moura. Encantado com a cidade, ele decidiu abandonar a vida itinerante e fixar residência definitiva em Atibaia. A partir de então, Arnaldo de Moura passou a reger a Banda União da Mocidade, lecionar música no Hotel Santa Cruz, onde estava hospedado, e fundar a Orquestra Santa Cecília. Sua atuação provocou grande repercussão entre os moradores, elevando o nível das atividades musicais locais e contribuindo para o desenvolvimento da vida cultural atibaiana. Mas sua permanência na cidade foi curta, falecendo no ano seguinte. A história desses circos revela que suas apresentações iam muito além do simples entretenimento. Ao trazer artistas, repertórios, técnicas e novas formas de expressão, companhias como os circos Bragazzi e Clementino ajudaram a integrar Atibaia aos grandes circuitos culturais de seu tempo, deixando marcas duradouras na memória e na formação artística da cidade.
Márcio Zago é artista plástico, artista gráfico de formação autodidata, fundador do Instituto Garatuja e autor do livro “Expressão Gráfica da Criança nas Oficinas do Garatuja”. Criador e curador da Semana André Carneiro.



