HISTÓRIAS DE ATIBAIA – Figueira Brava, da poeta de Atibaia Dulce Carneiro
Em 1950. o meio literário era majoritariamente masculino, não apenas entre os autores, mas também entre críticos, editores, jornalistas e dirigentes de instituições culturais. O preconceito frequentemente relegava a produção feminina a temas sentimentais, domésticos ou íntimos, considerados de menor importância pela crítica da época.
Márcio Zago
Nos anos 1950, era comum que artistas, políticos e empresários se hospedassem na Estância Lynce, um dos principais hotéis de Atibaia. Em 1951, o local recebeu a poeta Maria de Lourdes de Barros Leitão, conterrânea de Hilda Hilst. Diferentemente da escritora jauense, que alcançou reconhecimento nacional e internacional por sua obra, Maria de Lourdes não obteve a mesma projeção no cenário literário brasileiro. O jornal O Atibaiense destacou sua presença utilizando o substantivo “poetiza”, termo hoje em desuso por ter adquirido, ao longo do tempo, um sentido pejorativo, associado a uma literatura considerada menor ou amadora. Esse detalhe revela as dificuldades enfrentadas pelas mulheres que buscavam espaço em um ambiente cultural predominantemente masculino. A trajetória de Maria de Lourdes desenvolveu-se em um período em que a produção literária feminina ainda lutava por reconhecimento e visibilidade. Isso ajuda a explicar por que muitas autoras talentosas permaneceram menos conhecidas que seus contemporâneos homens, embora o país contasse com nomes expressivos como Cecília Meireles, Henriqueta Lisboa, Adalgisa Nery e, alguns anos depois, Hilda Hilst. Ainda assim, elas representavam uma parcela reduzida do universo literário nacional. Dulce Carneiro, a mais importante poeta de Atibaia, também enfrentou dificuldades semelhantes. O meio literário era majoritariamente masculino, não apenas entre os autores, mas também entre críticos, editores, jornalistas e dirigentes de instituições culturais. O preconceito frequentemente relegava a produção feminina a temas sentimentais, domésticos ou íntimos, considerados de menor importância pela crítica da época. Além disso, a consagração de um escritor dependia, em grande parte, da participação em academias, jornais, revistas e círculos intelectuais, espaços nos quais os homens exerciam maior influência. Somavam-se a isso as expectativas sociais que associavam as mulheres ao casamento, à maternidade e aos cuidados domésticos, fazendo com que a dedicação à carreira literária nem sempre fosse vista com bons olhos. “Figueira Brava”, poema que também dá nome ao livro da autora, foi publicado no jornal. A bela composição carrega a intensidade feminina expressava sem reservas.
Quisera ser como a figueira da mata
Virgem porque, de amor, ele aniquila e mata
A árvore amiga sua anfitriã venturosa.
Crava as raízes no chão,
Enrosca-se no hospedeiro, felina
Como uma serpente num leão
Luta e domina.
Quisera ser como a figueira brava
Para tua alma soberba minha escrava fazer.
Entre as duras fibras dos meus nervos
Envolver-te-ia, pouco a pouco, inteiramente
Até asfixiar-te no meu peito ardende.
Com que lascívia prender-te-ia, dos meus braços
Nos rígidos tendões em aspirais
Sem que pudesse fugir dos meus abraços. Nunca mais!
Quisera ser como a figueira brava
Para tornar sua alma fria minha escrava
Para fazer-te meu por toda vida!
Com que volúpia agitaria meu amante
De luxuriosa fronde, o impudico verdor,
Ao sentir, no meu seio latejante.
Teu corpo forte lânguido de amor!
Márcio Zago é artista plástico, artista gráfico de formação autodidata, fundador do Instituto Garatuja e autor do livro “Expressão Gráfica da Criança nas Oficinas do Garatuja”. Criador e curador da Semana André Carneiro.



