HISTÓRIAS DE ATIBAIA – Clube São João recebe um Caruso em Atibaia
É nas páginas do jornal O Atibaiense que estão registradas as principais informações sobre sua trajetória e sua passagem por Atibaia, especialmente na entrevista concedida a Ari de Toledo, um dos colunistas do periódico.
Márcio Zago
Em 1951, o Clube São João recebeu um recital do tenor brasileiro João Cavalieri, então conhecido como o “Caruso Brasileiro”. Sobre o artista, pouco se encontra atualmente nos meios digitais. É nas páginas do jornal O Atibaiense que estão registradas as principais informações sobre sua trajetória e sua passagem por Atibaia, especialmente na entrevista concedida a Ari de Toledo, um dos colunistas do periódico. A história de Cavalieri despertou interesse pelo caráter quase novelesco de seus acontecimentos. Nascido no Rio de Janeiro, então capital federal, em 1902, o futuro tenor ainda era criança quando vendia jornais pelas ruas da cidade, cantando para atrair a atenção dos compradores. Foi nessa circunstância que passou pela Confeitaria Castelões, célebre ponto de encontro da vida carioca, frequentado por intelectuais e artistas vindos de várias partes do país. Sua voz chamou a atenção do renomado tenor italiano Enrico Caruso, que ali estava por conta de uma de suas excursões ao Brasil. Impressionado com o talento do jovem vendedor de jornais, Enrico Caruso encaminhou-o ao jornalista José Carlos Rodrigues, importante mecenas e incentivador das artes na época. Esse gesto mudaria o destino de João Cavalieri, abrindo-lhe as portas para uma carreira artística de destaque. Foi desse encontro que nasceu o apelido de “Caruso Brasileiro”. Cavalieri estudou na França e na Itália e viveu por mais de três décadas na Europa, apresentando-se em importantes centros culturais de Paris, Londres, Berlim, Roma, Viena e Moscou. Em sua passagem por Atibaia, ao ser entrevistado pelo Atibaiense, foi questionado sobre a impressão que levava da cidade:
— Levo a melhor impressão desta encantadora terra. Atibaia é, de fato, como disse o célebre Amadeu Amaral: “o paraíso quase possível na Terra”. Parto de coração pleno de saudades desta hospitaleira gente, levando em minha retentiva as imagens belas e pitorescas desta cidade magnífica. Pretendo voltar algum dia.
O curioso é que, apesar da fama, João Cavalieri praticamente desapareceu das histórias mais conhecidas da música brasileira. Diferentemente de outros cantores líricos como BiduSayão, sua trajetória não foi amplamente documentada e hoje restam poucas informações sobre sua vida. É uma situação que se repete com frequência: artistas que em determinada época lotaram teatros, foram celebrados pela imprensa e conquistaram reconhecimento nacional acabam, muitas vezes, esquecidos à medida que o tempo passa e os registros se perdem.
A passagem de João Cavalieri por Atibaia também nos recorda da intensa vida cultural que a cidade já experimentou. Ao longo do século XX, seus clubes, hotéis, escolas e espaços de convivência receberam músicos, escritores, poetas, atores, conferencistas e personalidades de projeção nacional e internacional. Resgatar essas memórias é mais do que recordar personagens ilustres; é reconhecer Atibaia como um lugar de encontro e circulação de ideias, onde a cultura deixou marcas profundas. Ao trazer novamente à luz a história do “Caruso Brasileiro”, recuperamos não apenas a memória de um artista, mas também um pequeno fragmento da rica trajetória cultural da cidade.
Márcio Zago é artista plástico, artista gráfico de formação autodidata, fundador do Instituto Garatuja e autor do livro “Expressão Gráfica da Criança nas Oficinas do Garatuja”. Criador e curador da Semana André Carneiro.



