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Como confundimos negativas de crianças com falta de educação “porque não” já é resposta?

Por muito tempo, ser uma “criança educada” foi praticamente sinônimo de ser uma criança obediente. Aquela que não questiona, não interrompe, não contraria e, principalmente, faz o que os adultos mandam. Assim, obediência virou sinônimo de boa educação.

Anna Luiza Calixto

Dá um beijo na tia.” “Abraça o vô, ele vai ficar triste.” “Cumprimenta direito.” “Não responde adulto.” “Dá um beijinho senão eu choro.” “Faça o que ele está mandando.”A falta de autorregulação emocional do adulto se projeta na criança e confundimos seu “não” com falta de educação e carinho. Por muito tempo, ser uma “criança educada” foi praticamente sinônimo de ser uma criança obediente. Aquela que não questiona, não interrompe, não contraria e, principalmente, faz o que os adultos mandam. Assim, obediência virou sinônimo de boa educação. Mas existe uma pergunta que precisamos fazer: se ensinamos uma criança que ela nunca pode dizer “não” para um adulto, como esperamos que ela consiga dizer “não” justamente quando mais precisar? Você sabe do que eu estou falando. É lógico que crianças precisam de limites: aprender regras de convivência, respeitar outras pessoas, compreender que existem horários, responsabilidades e combinados. Educar não significa permitir que uma criança faça tudo o que quiser, mas também não significa que ela deve obedecer a absolutamente tudo e, por consequência, ficar vulnerável a um adulto mal intencionado que queira se beneficiar dessa submissão absoluta.

Pense em uma situação aparentemente simples. A família chega a uma festa e alguém pede: “Dá um beijo nele.”, momento em que a criança se esconde atrás da mãe e diz que não quer. Imediatamente começa a ladainha insistente na tentativa de convencimento: “Ah, mas ele gosta tanto de você.” “Só um beijinho.” “Não seja mal-educada.” “O tio vai chorar!”
Soa trivial, mas há um pano de fundo mais complexo: a criança está internalizando se o “não” dela em relação ao próprio corpo será respeitado. Quando obrigamos uma criança a oferecer carinho físico para agradar um adulto, podemos transmitir uma mensagem perigosa, ainda que essa jamais seja nossa intenção… Que o desconforto do adulto é mais importante do que o seu limite.
Por isso, ensinar autoproteção começa muito antes de conversarmos sobre violência, mas quando respeitamos um “não quero abraço”; ou ensinamos que ela pode cumprimentar alguém de outra maneira e, ainda, quando explicamos que ninguém pode obrigá-la a beijar, abraçar, sentar no colo ou permitir determinados toques.
Crianças precisam saber que nenhum adulto deve exigir delas um segredo que provoque medo, vergonha, tristeza, ameaça ou desconforto. Uma surpresa de aniversário tem hora para terminar e costuma provocar alegria. Um segredo que machuca vem acompanhado do pedido para esconder alguma coisa de quem poderia protegê-la. Discernir previne e protege.
Da mesma forma, precisamos rever a ideia de que uma criança deve acompanhar qualquer adulto conhecido simplesmente porque ele é conhecido. “Pode ir, eu sou amigo da sua mãe.” “Seu pai pediu para eu buscar você.” “Vem comigo rapidinho que sua mãe tá chamando.”
Autoproteção significa ensinar que mudanças de rotina precisam ser confirmadas com os responsáveis e que a criança pode procurar ajuda quando alguma situação parecer estranha, mesmo que envolva alguém que ela conhece.
E talvez aqui esteja uma das mudanças mais importantes que precisamos fazer enquanto adultos: parar de ensinar crianças a confiarem apenas em pessoas e começar a ensiná-las a reconhecer situações. Não existe uma aparência específica de alguém que oferece risco. Por isso, a proteção não pode depender apenas de frases como “não fale com estranhos”, está na hora de ensinar sobre comportamentos.
Um adulto não deve pedir que uma criança esconda dos responsáveis algo que a deixou desconfortável, muito menos insistir em tocar no corpo de uma criança depois que ela demonstra incômodo.Um adulto não deve ameaçar uma criança para conseguir silêncio nem fazer com que ela se sinta responsável por proteger sentimentos, reputações ou segredos de adultos.Crianças devem saber que tem para quem contar e para onde voltar. Não importa se foi “só uma vez”, nem se ela “demorou” para procurar ajuda.
Quando uma criança nos procura ela já vendeu inúmeras batalhas internas: o medo de ninguém acreditar nela, de vir o fardo da culpa, de ser revitimizada, punida, constrangida ou exposta.
Para isso, entretanto, nós, adultos, precisamos construir um ambiente em que a palavra da criança tenha valor também nas pequenas coisas. Não adianta ensinar “se acontecer alguma coisa, conte para mim” se, cotidianamente, respondemos às manifestações da criança com “pare de frescura”, “você está exagerando”, “isso não é nada” ou “adulto sabe o que está fazendo”.
A capacidade de pedir ajuda não nasce magicamente diante de uma situação de violência, mas é construída todos os dias, seja quando uma criança percebe que pode falar sobre aquilo que a incomoda e será ouvida ou quando não é responsabilizada por absolutamente tudo aí seu redor.
Uma criança educada pode cumprimentar alguém sem dar um beijo; respeitar um adulto e mesmo assim discordar dele.Pode aprender regras e também aprender limites, ser gentil sem precisar aceitar carinho físico, obedecer aos responsáveis e, ao mesmo tempo, saber que existem situações em que deve procurar ajuda.
Há tanto tempo ensinamos crianças a serem obedientes para facilitar a convivência com os adultos… Talvez esteja na hora de ensinarmos os adultos a conviverem com crianças que sabem reconhecer e comunicar seus próprios limites.

Anna Luiza Calixto é escritora, fundadora do Projeto Bem me quer, cientista social e educadora sexual.