HISTÓRIAS DE ATIBAIA – Clube da Oratória estimulando o debate nos anos 1950
Em uma época anterior à televisão e, naturalmente, muito distante dos atuais recursos de comunicação, saber falar em público era considerado uma qualidade importante para a vida profissional, política e social.
Márcio Zago
Foi nas páginas de O Atibaiense, no início dos anos 1950, que surgiram as primeiras referências ao Clube da Oratória de Atibaia. A entidade tinha como propósito desenvolver a arte da palavra, estimular o debate, promover conferências e contribuir para a formação intelectual de seus participantes. Em uma época anterior à televisão e, naturalmente, muito distante dos atuais recursos de comunicação, saber falar em público era considerado uma qualidade importante para a vida profissional, política e social. Os clubes de oratória, em muitos lugares, tinham outras denominações, como Clube de Debates, Grêmio Literário ou Academia de Letras Juvenil. Eram espaços de convivência e aprendizado nos quais estudantes, professores, profissionais liberais e outros interessados exercitavam a capacidade de argumentação, participavam de debates e concursos de eloquência e desenvolviam a expressão oral. Em maio de 1952, uma pequena nota publicada pelo O Atibaiense anunciava o primeiro almoço de confraternização do Clube, marcado para acontecer no Bar do Lorenzoni. Na edição de junho, o jornal registrava os participantes do encontro e revelava que a presidência da entidade estava a cargo do Dr. Geraldo da Cunha Barros. Estiveram presentes os associados Benedito MussolineVaghetti, Jorge Durante, Benedito Salim NabibAjan, professor Abel Pires da Silva, Alfredo Sant’Anna, Benedito Nicolau, Magid Rafael, Abrahão Zigaib e Geraldo Henrique de Souza. O encontro seguinte teve como homenageado o empresário e jornalista Cesar Mêmolo, figura de destaque na vida cultural e empresarial da cidade. Nas reuniões posteriores foram homenageados Antônio Sebastião Garcia Lopes, Álvaro Correa Lima, Zezico Alvim e Tereza Marcílio, reconhecidos, segundo os registros do jornal, por suas contribuições à comunidade. Mais do que simples encontros de confraternização, as reuniões do Clube constituíam verdadeiras sessões de exercício da palavra e do pensamento. Um artigo publicado em agosto de 1952 oferece um raro testemunho sobre a dinâmica desses encontros: “Realizou-se sexta-feira, dia 22, mais uma reunião do Club da Oratória desta cidade tendo usado da palavra todos os seus componentes que dissertaram sobre vários temas brilhantemente expostos. Todavia, o que mais calorosos debates provocaram foi um de cunho altamente filosófico, dando margem a que duas fortes correntes, de ideias antagônicas, demonstrassem a pujança de sua inteligência, sobriedade e elegância de expressões e, sobretudo, a maneira educada e bastante cortês com que se defrontaram no mais aceso dos apartes.”O jornal, que afirma ter se feito representar em todas aquelas reuniões, prossegue em tom entusiasmado, prevendo que o novo clube chegaria “aos altiplanos da Alta Cultura pelos caminhos da oratória”, tornando-se motivo de orgulho para a então Estância de Atibaia. A linguagem utilizada revela não apenas a importância atribuída à palavra falada e escrita, mas também o ambiente de valorização da cultura e da formação intelectual que marcou parte da vida social atibaiense naquele período. A trajetória do Clube ultrapassaria, contudo, os anos de sua primeira fase. Sua atuação alcançou reconhecimento institucional em 1965, quando a Lei Estadual nº 8.962, de setembro daquele ano, declarou a entidade de utilidade pública no Estado de São Paulo. A lei foi sancionada pelo então governador Adhemar de Barros, político que havia apoiado o movimento que depôs o presidente João Goulart em 1964, lembrando que o primeiro presidente do Clube, o Dr. Geraldo da Cunha Barros, exercia atividade política em Atibaia e viria a ter seu mandato de prefeito cassado durante o regime instaurado após o movimento de 1964. Mais que uma associação dedicada ao exercício da eloquência, o Clube da Oratória revela a existência, na Atibaia dos anos 1950, de um ambiente em que a palavra, o debate e a cultura eram entendidos como instrumentos de formação e participação na vida pública. Suas reuniões, registradas nas páginas de O Atibaiense, ajudam a recuperar um aspecto pouco conhecido da história cultural da cidade e das pessoas que, por meio da palavra falada, procuravam participar dos debates de seu tempo.
Márcio Zago é artista plástico, artista gráfico de formação autodidata, fundador do Instituto Garatuja e autor do livro “Expressão Gráfica da Criança nas Oficinas do Garatuja”. Criador e curador da Semana André Carneiro.



