HISTÓRIAS DE ATIBAIA – O ciclo natalino no início dos anos cinquenta
No início da década de 1950, o jornal O Atibaiense publicou uma pequena matéria assinada por João do Morro, na qual o autor registrava suas impressões sobre as festividades de fim de ano em Atibaia.
Márcio Zago
No início da década de 1950, o jornal O Atibaiense publicou uma pequena matéria assinada por João do Morro, na qual o autor registrava suas impressões sobre as festividades de fim de ano em Atibaia. Segundo ele, as comemorações atravessavam um período de acentuado declínio quando comparadas às décadas anteriores, apesar do grande prestígio que tradicionalmente desfrutavam em toda a região. O articulista chamava a atenção para a pouca importância dada às congadas, sem o apoio e o reconhecimento esperados por parte dos festeiros, responsáveis, até então, pela manutenção e viabilização dessa importante manifestação da cultura popular.
As cavalhadas, por sua vez, também teriam ficado aquém das expectativas naquele ano, evidenciando, segundo sua avaliação, uma perceptível falta de organização entre seus participantes. No artigo, João do Morro atribuía parte desse quadro ao que chamava de “povo que foge da coleta”, numa referência à diminuição das contribuições financeiras destinadas à Igreja e às festividades religiosas. Criticava ainda o comércio local, que estaria reduzindo seu apoio às celebrações, e os hotéis, acusados de elevar excessivamente os preços das hospedagens durante o período festivo, o que, em sua opinião, contribuía para afastar visitantes e reduzir o fluxo de turistas.
Na semana seguinte, o jornal publicou uma nova matéria, desta vez em nome da própria redação, contestando alguns dos argumentos apresentados por João do Morro. Vale lembrar que O Atibaiense tinha então como redator-chefe Amadeu Mêmolo Neto, filho de César Mêmolo, importante empresário local ligado ao setor hoteleiro. Em sua defesa, o periódico argumentava que os preços praticados pelos hotéis eram compatíveis com os cobrados em cidades vizinhas e não poderiam ser apontados como causa principal da redução do público. Embora concordasse com várias das observações feitas pelo articulista, o jornal procurava explicar o aparente declínio das festas a partir de transformações mais amplas vividas pela própria sociedade.
O crescimento urbano, a mudança dos hábitos sociais e as novas expectativas da população estariam alterando a relação dos moradores com as tradições locais. Como exemplo, o texto citava o enfraquecimento de alguns rituais católicos ligados ao ciclo natalino, práticas que durante gerações haviam contado com forte participação popular e estreita articulação com a Igreja. Essa pequena polêmica, registrada nas páginas do jornal, revela a preocupação que diversos setores da sociedade atibaiense demonstravam em relação ao futuro de suas manifestações culturais mais tradicionais.
Mais do que uma simples discussão sobre festas populares, o debate evidenciava a percepção de que Atibaia atravessava um período de transição, no qual valores, costumes e formas de sociabilidade herdados do passado começavam a conviver com as demandas de uma cidade em processo de modernização. Naquele período, a Prefeitura Municipal era dirigida pelo sanitarista Walter Engrácia de Oliveira, recém-chegado ao cargo. Homem de sólida formação intelectual e grande apreço pelas artes e pela cultura, Engrácia de Oliveira encontraria, poucos meses depois, em João Batista Conti, um importante aliado na valorização das tradições locais. A aproximação entre ambos contribuiria para uma mudança significativa de perspectiva: as festas populares deixariam de ser vistas apenas como celebrações religiosas ou folclóricas para assumir também o papel de patrimônio cultural e instrumento de promoção turística da cidade. A partir dessa nova visão, as manifestações de fim de ano passaram gradualmente a ser valorizadas como elementos distintivos da identidade atibaiense. Congadas, cavalhadas e outras tradições populares tornaram-se símbolos de uma herança cultural que merecia ser preservada, divulgada e fortalecida. Assim, aquilo que no início dos anos cinquenta era percebido como um processo de declínio acabaria, poucos anos depois, servindo de estímulo para um movimento de resgate e valorização das raízes culturais de Atibaia, cujos reflexos ainda podem ser observados na memória e na vida cultural do município.



