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A menina que aprendeu a caber no mundo

Ninguém nasce acreditando que vale menos, mas essa lição é ensinada todos os dias, em casa, e as meninas aprendem rápido demais.

ANNA LUIZA CALIXTO

Em 2017, uma pesquisa publicada na revista Science fez uma pergunta simples a crianças de cinco a sete anos. Os pesquisadores contavam a história de uma pessoa “muito, muito inteligente” e pediam que as crianças adivinhassem se ela era homem ou mulher. Aos cinco anos, meninas e meninos associavam a inteligência brilhante ao próprio gênero na mesma medida. Um ano depois, as meninas já tinham mudado de ideia: aos seis anos, passaram a apostar que a pessoa genial era homem e começaram a recusar jogos apresentados como sendo “para crianças muito inteligentes”. Bastou um ano de convivência com o mundo para que uma menina deixasse de se enxergar como alguém capaz de brilhar. Esse dado deveria nos tirar o sono, porque ele desmonta a desculpa mais confortável que temos: não se trata de natureza, de vocação ou de jeito de menina, mas de aprendizado. Se é aprendizado, logo, alguém está ensinando. E se eu te disser que esse alguém somos nós? Ensinamos quando elogiamos a menina por ser bonita, comportada e quietinha, enquanto o menino é elogiado por ser esperto, corajoso e curioso; quando dizemos que ela é caprichosa e que ele é inteligente, como se o esforço dela fosse disciplina e o dele fosse talento; quando a menina que fala alto é chamada de mandona e o menino que faz o mesmo é tem “espírito de liderança”. Nenhuma dessas frases parece violenta quando dita na mesa do jantar ou na reunião de pais, mas todas elas, repetidas ao longo da infância, constroem uma certeza silenciosa de que o mundo das ideias, das decisões e das conquistas pertence a outra pessoa. Ensinamos também pelo que pedimos a elas. A pesquisa Por Ser Menina no Brasil, da PlanInternational, mostrou que a grande maioria das meninas arruma a cama, lava a louça e cuida dos irmãos menores, enquanto só uma pequena parte dos meninos faz o mesmo. O tempo que ela gasta cuidando da casa é o tempo que ele usa para brincar, inventar, errar e tentar de novo, que é exatamente como se descobre do que se é capaz. A menina aprende cedo que o seu lugar é servir, e que o tempo livre é um privilégio que não foi pensado para ela. E há uma segunda mentira, talvez mais cruel do que a primeira, que é convencer as meninas de que elas são desinteressantes. Os gostos delas viram motivo de piada, as músicas que escutam são chamadas de bobas, os assuntos que trazem são tratados como fofoca e as perguntas que fazem são interrompidas antes do fim. Na adolescência, as redes sociais completam o serviço com uma vitrine infinita de corpos editados e vidas perfeitas, ensinando que o valor de uma garota está na imagem que ela consegue sustentar e nunca naquilo que ela pensa. Não é coincidência que tantas meninas cheguem aos quatorze anos pedindo desculpas antes de dar uma opinião. Quem trabalha com a proteção de crianças e adolescentes sabe que essa conta não fica só na autoestima: a menina que acredita que não é capaz tem mais dificuldade de dizer não, de reconhecer que algo está errado e de pedir ajuda. A que acredita que não é interessante fica mais vulnerável a quem aparece oferecendo atenção, elogios e a sensação de ser especial. A desvalorização que começa como uma frase aparentemente despretensiosa pode terminar como porta de entrada para relações abusivas, evasão escolar e silêncios que duram anos.

O Estatuto da Criança e do Adolescente garante a toda criança o direito ao respeito, que inclui a preservação da sua identidade, da sua autonomia e dos seus valores. Respeitar a identidade de uma menina é permitir que ela descubra quem é sem que alguém tenha decidido antes o tamanho que ela pode ter.
Ninguém merece beber a poção da Alice no país das maravilhas para encolher até caber no que o mundo julga ser mais apropriado. A menina de seis anos daquela pesquisa não decidiu sozinha que a genialidade não era para ela. Alguém a convenceu disso. A boa notícia é que crenças aprendidas também podem ser desaprendidas, desde que os adultos ao redor estejam dispostos a rever o que andam ensinando. Cada vez que uma menina é levada a sério, o mundo fica um pouco menos pequeno para ela, e ela se permite ser um pouco maior dentro dele.

Anna Luiza Calixto é escritora, fundadora do Projeto Bem me quer, cientista social e educadora sexual.