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Desesperar jamais: a esperança como aliada diária

Desesperança e paralisia como irmãs da estagnação e da completa apatia diante da realidade.

Anna Luiza Calixto

Recentemente tive a oportunidade de assistir ao espetáculo O céu da língua, monólogo instigante dirigido por Luciana Paes que coloca em cena o ator formado em letras Gregório Duvivier, numa bem humorada à língua portuguesa. Sobre isso falaremos mais atentamente num próximo texto, mas quero chamar atenção para o que Gregório bradou ao lado de sua família (parceira, filhas e irmão) ao centro do palco no final do espetáculo: “a desesperança é ferramenta reacionária!”
A frase me golpeou de frente, fazendo com que eu refletisse sobre a forma como cada manchete, reels, estatística e prognóstico não raro tem o impacto de nos abater e nos prostrar diante de uma realidade que (ironicamente) só podemos mudar de cabeça erguida.
Trabalhando com prevenção à violência contra crianças e adolescentes, já me vi desesperançosa e indignada. A indignação, assim como a raiva e outros sentimentos que tendemos a associar a uma carga negativa, pode ser mobilizadora, como um combustível que nos abastece para o enfrentamento à barbárie. A desesperança, por outro lado, é paralisante. Sedimenta chumbo nos meus pés, impedindo que eu caminhe.
Galeano, escritor e jornalista uruguaio, popularizou um conceito de utopia pelo qual nutro muito afeto. Um ponto ao longe no horizonte para nortear o caminhar. Ao passo que me aproximo ele se afasta, mas isso não me desespera, pelo contrário: me coloca em movimento, me convida a seguir passo a passo na direção do que acredito.
Eu sei que os tempos que atravessamos não são lá muito convidativos à esperança e utopia, mas talvez só essas duas velhas conhecidas do povo brasileiro estejam dispostas (e, mais do que isso, preparadas) para nos acompanhar no percurso.
Começo meu dia me lembrando do que é essencial. Levantar da cama e lembrar daqueles por quem me movimento, por quem eu sinto um amor que apaga a prostração. Conecto minha mente à minha fé, minha espiritualidade e minha crença, que torna a caminhada menos densa e penosa. Olho para mim no espelho e tento me lembrar da minha versão mais apaixonada pela vida e pelo futuro, mesmo sem saber tanto sobre ele. A minha criança, que se divertia contando quantos carros vermelhos ou azuis passavam pela rua, acreditando que um ou outro me traria boa sorte.
Com amor, fé e uma dose de infantilidade, eu começo o hoje. Mesmo porque, o cliché não nos permite esquecer que o ontem já foi e o amanhã, por hora, não existe. O que temos nas mãos é um punhado de agora, um tanto de instantes e uma pitada de jás. Parece pouco (talvez até seja), mas sem eles tampouco somos alguma coisa.
Outubro, novembro e dezembro vêm galopantes piscando luzes de Natal, embrulhos de celofane e folhinhas de calendário nos despedindo de um ano que parece nem ter passado por nós. Pois é… No fim das contas, nós é que passamos por ele.
Meu 2026 fez um bocado para me desesperançar. Do luto que traz despedidas indesejadas à necessidade de reavaliar e também desistir. E mesmo com tanto para amargurar, tem tanta beleza no caminho.
Considerada a maior poetisa brasileira viva, a nonagenária Adélia Prado, numa célebre entrevista ao programa Roda Viva, refletiu: “a vida é um vale de lágrimas. Se eu disse diferente, estou mentindo. É um vale de lágrimas. Há crianças, grama verde, oásis, alegrias. Mas é um vale de lágrimas. (…)”
Caminhamos de mãos dadas e nós na garganta por esse vale, por vezes tão inflamados que nos esquecemos de que o percurso chega ao fim. Escrevendo aqui me peguei cantarolando os versos de Ivan Lins: “afinal de contas, não tem cabimento, entregar o jogo no primeiro tempo.” Até o último apito vamos dançar, rir, ouvir e sonhar. É o que fazemos de melhor nesse país.

Anna Luiza Calixto é escritora, fundadora do Projeto Bem me quer, cientista social e educadora sexual.